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terça-feira, 21 de junho de 2016


O que eu sou quando ouso dizer?
Se nada digo, guardo comigo o enorme mistério de ser.

É preciso ter cautela, não ter medo de guardar.
Se a tola palavra sai
é melhor saber o que isso vai gerar.

Das milhares ilusões que criei
Mastigo ainda grande parte delas.

É difícil digerir nossa imaginação
E é difícil progredir sem intuição.

Sobre todas as armas que há em minha cabeça
respiro continuamente até que delas um dia
me esqueça.

se o laço fica atravancado
é capaz de virar nó
e nó pra nos deixar cegos 
não tem cristo que tenha dó

terça-feira, 26 de maio de 2015

pode ser
que não
pare

de ser
tanto
que é

não só
parece
é

de todo
profundo

mar
mundo
fundo

que é
junto
ser

único

segunda-feira, 11 de maio de 2015



Sentir 
seu coração 

faz-me entrar 
em outra constelação

e mesmo sem 
entrar em órbita

eu já consigo 
tirar meus pés 
do chão

sábado, 10 de janeiro de 2015

claridade oca



quando naquela miragem vagava

a claridade veio 
sobrevoando os traços
ainda visíveis
da paisagem

o náufrago,
o mar, a areia
fundiam-se num só    corpo

como se fosse só e o corpo sol
num por e tirar num vai e vem

num pôr do sol de por sal no céu
de por sol no porto de ser só e torto

quando naquela miragem vagava

sobrevoei os pensamentos teus
e descobri em plena claridade

o quanto seu corpo era seu
e o quanto meu corpo era seu



terça-feira, 23 de dezembro de 2014

carta para passarinho voar


Não, não aguentei. O choro já tinha sido contido inúmeras vezes. Às vezes é preciso deixar chorar, deixar chover. 
E ao estar só, deparo com a imensidão contida na existência – sua, minha e de muitos nós que foram se atando, imprevisíveis pelo caminho.

Se for de barco, a braçadas, ou com as solas mais desgastas que estiver nos pés, apenas vá. Você é o motor, seu movimento interno nunca vai cessar. Dê partidas, pegue no tranco, se precisar empurre. O movimento é seu, você quem faz.

Da engrenagem que te movimenta surge às ondas, então as procure, as provoque e as viva, passarás por quantas quiser e precisar. Aproveite as tormentas, pois elas lhe mostrarão ainda mais direções. Não se assuste com a agitação, mesmo que doa e que lhe de medo, ela estremece, mas indica muitas outras possibilidades.

As coisas só se revelam em sua totalidade quando percebemos e acessamos a tamanha beleza delas. O desnudamento é partida. Você sempre foi chegada. Transforme isso e o que mais compreender importante. 

Se mantenha inteira ainda que pelo caminho divida suas partes. A cada pedaço doado, outro broto crescerá diante dos teus olhos brilhantes. Quando perceber já terá afetado todo caminho, deixando rastros e carregando memórias que não se findarão. Que não cairão no esquecimento.

Nas ondas os barcos se balançam, vão um pouco pra frente, voltam um punhado pra trás, vão muito pra frente e um pouco pra trás. Até chegar ao meio, até alcançar o outro lado. Adormeça em sua ilha, aproveite o valioso silêncio dela, e, se precisar volte ao cais.

Não se recuse em ficar só se a companhia não corresponder à sua tamanha dimensão. Não se esqueça do poder da respiração. E onde estiver, execute todas as peças guardadas dentro desse peito de passarinho. Conheça suas pequenas asas, pois nelas reconheço plenamente sua maestria.

.Através do meu coração passou um barco, que não para de seguir sem mim, o seu caminho.

Ainda que hoje a latência da sua ausência me confunda inteira, sei que cantarás, encantará passarinhos e que com eles, voará.
Voe. Voe. Voe. Voe. Voe. Voe. Voe. Voe. Voe!



Evoé.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Esse amor interrompido
Corrompido pelo
Crime
íngrime tempo desajustado

Que maldade tudo começar 
Assim
Meio trapo
Meio fardo
aos farrapos

Desse amor
Só um punhado de asas
A orquídea roubada
E o incenso artesanal
Que acabou rápido

da nossa pitanga
deu amora
ainda sobra espaço
lá fora

da maresia nem saudade
restou a vontade
o quintal vazio
o espinho
dos cactos
das rosas
e do que não
foi

a finco
no fundo
com tudo
lá dentro

domingo, 14 de dezembro de 2014

claridade

cantar nada mais é
que sobrevoar o mundo
interno

é assentar em si


cantar é como nascer

é como rio que passeia
é como Clara
que clareia

é mar instável

corda nenhuma 
segura

é uma maré calma

as vezes (a)tormenta

cantar nada mais é

que dar-se
evocar
para si
forças outras

palavra

cantiga
reza

quando se canta 

o fundo
acessa


da boca
a palavra sai

mas é a voz que

toca 
o mundo